Dra. Daniela Ramos Artigos e Entrevistas
Pitbull: o desconhecimento pode ser fatal

Triste caso no interior de São Paulo reacende discussões sobre o estigma que cerca a raça. Confira entrevista com a especialista em comportamento animal, Daniela Ramos

Por Bruno Schuveizer

No começo do mês, um raro e triste caso de agressão animal contra o próprio dono foi notícia na grande mídia. A enfermeira Bárbara de Oliveira, 35, foi atacada por seu pitbull em Itapira, no interior de São Paulo. Vizinhos chamaram a Guarda Municipal após ouvir gritos, mas, quando a ajuda chegou, Bárbara já estava morta. De acordo com a Polícia Civil, não há informações sobre o que provocou o ataque do animal.

Logo após o ocorrido, o pitbull Lex foi levado ao CCZ do município, onde permaneceu por 10 dias. De acordo com Paulo Melo, responsável pela ONG Santuário Pit Bull, que acolheu o cão, Lex foi torturado e maltratado. Segundo ele, o animal mostrava marcas de queimaduras por cigarro, além de uma infestação de carrapatos e de ter perdido mais de metade de seu peso. Paulo, entretanto, negou que denunciará na justiça o CCZ.


Pit bull Lex antes e depois de ficar em observação no CCZ de Itapira

Rodrigo Bertini, veterinário do CCZ de Itapira, nega que o animal tenha sofrido maus-tratos, alegando que todo o tratamento teria sido filmado. Segundo ele, o cão emagreceu por recusar a ração oferecida pelo CCZ.

Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil, se pronunciou sobre o triste episódio.”A moral humana jamais deve ser aplicada para julgar um cão ou qualquer outro animal. A ciência do comportamento animal aplicado chama-se Etologia, e é ela que deve ser evocada para se entender esse triste caso”, declara. “Abominamos qualquer maus tratos e crueldades a que o animal tenha sido, eventualmente submetido. Caso isso se confirme, deve ser punido com o rigor da lei”, complementa.

Agressividade

A Dra. Rúbia Burnier, especialista em comportamento animal, explica que apenas 20% da agressividade do cão tem origem genética, os outros 80% são fatores como experiências na infância; a forma como são tratados na adolescência, fundamental para que ele resista a instintos agressivos; e traumas durante o seu desenvolvimento.

“A agressividade é uma das ferramentas menos utilizadas em uma matilha, a meta não é ferir um integrante, mas sim cuidar um do outro. Todos investem para que os jovens se preparem para a vida.”, esclarece Rúbia.

Para Fernanda Kerr, veterinária da ARCA, fatores como dor também podem fazer com que o animal tenha atitudes mais agressivas. “O cachorro morde quando está com dores. Quando isso ocorre os veterinários checam o físico do cão para saber se esse foi o motivo do ataque”, diz. “Caso não haja nada, é indicado procurar um especialista em comportamento animal”, completa.

Entrevista com Daniela Ramos, especialista em comportamento animal pela University of Lincoln (Inglaterra)

Notícias da ARCA – O que pode explicar o fato do cão ter atacado sua dona?

Daniela Ramos – Alguns cães atacam pessoas, inclusive membros da família, e isso pode ocorrer por medo, ansiedade, possessividade, dor, redirecionamento (o objetivo era atacar um outro alvo), frustração, dentre outros. Só mesmo com conhecimento do cenário completo onde o ataque ocorreu poderíamos entender a motivação deste cão naquela circunstância. Não é possível generalizar, raramente cães atacam de maneira indiscriminada, imprevisível e sem precedentes.
Se realmente o ato agressivo por parte do Lex não tenha sido resultado de algum acidente ou outro fator que desconhecemos, sendo de fato “intencionalmente” direcionado a proprietária, me surpreenderia saber que, aos 10 anos de idade, este tivesse sido o primeiro ato agressivo deste cão. Um cão altamente amigável e confiável, que jamais tenha atacado seus familiares, poderia até atacar repentinamente numa situação extrema, de dor por exemplo, mas este ataque seria menos intenso, com certo grau de inibição, não como parece ter sido o caso do Lex.

NA – O fato de o cão ter certas “mordomias” pode ter influenciado no ataque, caso ele tenha sido privado desses tratamentos por algum motivo?

DR – Diretamente não, mas pode ter tido certa contribuição. “Mordomias” e “mimos” (resumidamente, o cão que “pode tudo e nunca é contrariado”), ainda que não seja a melhor conduta, por si só não levaria um animal de temperamento amigável a ato tão grave.  Mas em se tratando de um cão agressivo (o que independe da raça!), isso pode ser prejudicial. Nestes casos, é fundamental que hajam limites, regras, treinos de obediência e atenção ao dono, além de uma comunicação embasada na clareza e na gentileza.
Qualquer cão que já tenha atacado seus familiares alguma vez pode ser considerado como potencialmente agressivo e deve ser criado com critérios e cuidados, sob a orientação de um especialista em Comportamento Animal. Dormir na cama, por exemplo, pode ser perigoso nestes casos.

Dar acesso a tudo e a todos, quando e como queira, é privilégio contraindicado para um cão potencialmente agressivo. A frustração de eventualmente ter algo negado ou retirado, ou mesmo de ser corrigido verbalmente, pode desencadear agressividade. O dia-a-dia com regras, limites e obediência, ajuda a manter a impulsividade e, portanto, a agressividade, sob controle.

NA – Até onde fatores que não dizem respeito à raça teriam influenciado o ataque?

DR – Todos os fatores até aqui discutidos, desde o ambiente em que o animal é criado e a relação deste com a família, até os fatores motivacionais que conduziram o animal ao ataque (ex: medo, ansiedade, frustração), independem da raça. Em se tratando de uma raça de grande porte e mordedura potente (tal como os Pitbulls) há que se ter uma cautela maior quando se tratar de um indivíduo com potencial agressivo, pois podem causar ataques graves ou até fatais. Mas não é a raça que determina a ocorrência do ataque.

NA – O cão, depois do ocorrido, teria sido torturado por funcionários do CCZ. No que isso pode influenciar em seu comportamento futuro?

DR – Se realmente a tortura ocorreu, é mais um grande trauma na vida deste cão.  O primeiro foi o ataque em si – após um ataque desta monta contra um membro da família, é comum os cães reagirem com elevado grau de estresse. O segundo foi a transferência para o CCZ e a ausência da família. Todos esses traumas geram cicatrizes não só físicas, mas principalmente psicológicas: abalam emocionalmente o animal, tornando-o apreensivo, inseguro, deprimido, ou até mais propenso a futuros ataques.

NA – O que pode ser feito para reverter o comportamento agressivo desse cão?

DR – A terapia dependerá do tipo de agressividade e do indivíduo; não sabemos qual foi a motivação do Lex, nem como era o Lex. O objetivo da terapia comportamental é manter a agressão sob controle, identificar possíveis “avisos” (ex: rosnados, eriçar de pelos) que o cão agressivo dê e que devem ser respeitados; jamais devemos confrontá-los nestes momentos. Contextos em que a agressividade ocorre devem ser trabalhados com treino positivo, buscando modificar a motivação do animal. Estados emocionais devem ser ajustados, muitas vezes com o auxílio de medicações. A comunicação deve ser clara para o animal, sua rotina previsível, e as regras de convivência bem estabelecidas e consistentes. É preciso comprometimento e dedicação da família!